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sábado, 24 de outubro de 2020

Onde está a cruz?

A cruz é o lugar onde renunciamos à nossa própria vida para desfrutarmos da vida abundante que só Cristo pode dar; uma vida cujo prazer, contentamento e propósito está naquele que é o autor e consumador da nossa fé. A cruz é o lugar onde é mortificado o adorador de si mesmo para, na Palavra e pelo poder do Espírito, ser gerado um novo ser capaz de adorar a Deus em espírito e em verdade

ao pé da cruz
Imagem: Pixabay

“Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; e vos renoveis no espírito da vossa mente; e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.” (Efésios 4:22-24)


Pr. Cleber Montes Moreira


Numa postagem no Facebook uma internauta elogiava jovens evangélicos de um determinado grupo por sua prontidão para servir “atendendo ao chamado”. Nas fotos, jovens descontraídos, demonstrando alegria, em cenas divertidas. Nos vídeos, coreografias ao som de músicas dançantes em ambiente com paredes escuras e luzes de neon — não consegui identificar se a celebração cúltica ocorria num templo religioso ou outro espaço próprio para shows. No palco “animadores” e “dançarinos” comandavam a galera, tendo num telão projetada a imagem de um leão. Durante aquela performance espetacular a maioria, aglomerada, usava máscaras — não entendi se em obediência a algum protocolo determinado por algum decreto, em decorrência da pandemia, ou se, inconscientemente, como indicativo de falsa espiritualidade.

 

Observando atentamente aquelas fotos e vídeos, notando com atenção cada cena registrada do ambiente, surgiu em minha mente uma pergunta inquietante: Onde está a cruz? Não falo sobre uma cruz de madeira, metal ou outro material, pendurada em algum pescoço, fixada ou projetada numa parede — porque este tipo de cruz não havia, mesmo —, mas da cruz do evangelho. Falo da cruz sobre a qual Jesus falou: “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” (Mateus 10:38). Falo da cruz sem a qual ninguém é, verdadeiramente, cristão. Falo da cruz de quem renunciando à sua vida, por amor ao Senhor, encontra a vida abundante que só Cristo pode dar (Mateus 10:39); uma vida cujo prazer, contentamento e propósito está naquele que é o “autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hebreus 12:2); uma cruz pela qual somos libertos da antiga natureza, do velho modo de viver, corrompido pelos desejos impuros e pelo engano, tendo nossos pensamentos e atitudes renovados pelo Espírito Santo, sendo, agora, revestidos por uma nova natureza, criada para ser justa e santa, segundo o padrão de Deus (confira Efésios 4:22-24); falo da cruz que nos transforma em “verdadeiros adoradores” cuja adoração é “em espírito e em verdade” (João 4:22-24), não na carne, não no engano, não movida pelo hedonismo, tendo não o homem, mas Cristo como centro e Sua glória como propósito.

 

Culto a Deus não é oferecido com agitação de corpos, danças, gritos, cambalhotas, declarações triunfalistas, sermonetes descontextualizados… Devemos aprender com Paulo que o culto racional se pratica na inconformação com o mundo, renovação da mente e na experiência da vontade de Deus mediante a apresentação dos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Romanos 12:1,2). Precisamos aprender da experiência de Isaías, quando os serafins em reverência cobriam com suas asas seus rostos e pés enquanto declaravam que “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”, e com o profeta que, diante da presença de Deus, em temor e reconhecimento, exclamou: “Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Isaías 6:3).

 

As igrejas falham quando proveem entretenimento para os jovens como estratégia para atraí-los ou “mantê-los na igreja”, produzindo, assim, um estilo carnal de ‘adoração’ descolada da cruz. Charles Spurgeon, dizia: “o diabo raramente teve uma ideia mais sagaz que sugerir à igreja que parte da sua missão é fornecer entretenimento para as pessoas, tendo em vista conquistá-las”. Não sou contra o entretenimento, no tempo e no espaço próprio, mas entendo que o “evangelho do entretenimento” não leva ninguém ao Salvador, não produz discípulos de Cristo, embora seja eficaz em produzir adesões; afinal, é natural que jovens de vida secular sejam facilmente atraídos por este tipo de oferta, uma vez que encontram na “igreja” atrativos que há mundo. Além disso, podem levar uma “vida divertida”, e até liberal, seguindo um falso evangelho capaz de aplacar suas consciências. Não é sem motivo que certa ocasião, uma famosa atriz, ao dar seu testemunho — ou tristemunho — declarou que escolheu ser membro de uma determinada igreja porque lá não havia regras, e que podia estar em comunhão com Deus e continuar fazendo tudo o que fazia antes. Certamente que o diabo se especializou em oferecer ao pecador um evangelho palatável, que não requer abnegação nem santidade, um evangelho sem exigências e sem a cruz.

 

Pensemos no que disse Joe Thorn: “A infiltração do entretenimento dentro do culto não é uma questão de estilo, mas de substância. O entretenimento é uma coisa boa, mas o seu propósito é o alívio da mente e do corpo, não a transformação da mente ou a edificação do espírito.”