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sábado, 1 de agosto de 2020

“Pecado é não amar”, é isso mesmo que a Bíblia ensina?

O conceito de pecado deve ser concebido na inteireza e abrangência do ensino bíblico, sem reducionismo ou relativismo, para que ninguém fique desavisado sobre a severidade do juízo divino sobre os pecadores não arrependidos. Dizer que Jesus preferiu não julgar ou condenar, pois estava mais interessado em amar e acolher é politicamente correto, mas faz parte de um discurso mentiroso e diabólico

aquarela
Imagem: Pixabay


Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.” (Efésios 5:6)


Pr. Cleber Montes Moreira

 

O título desta reflexão é a frase, tomada de outro contexto, com que um líder religioso finaliza uma postagem em que afirma que Jesus não condenou a homossexualidade porque “preferiu não julgar ou condenar, pois estava mais interessado em amar e acolher.” No post, o autor admite a existência de textos bíblicos contrários à prática, mas insiste que se forem levados em conta, o leitor poderá “promover e justificar atrocidades”, bem como afirma que a Bíblia precisa ser contextualizada e lida a partir da consciência do Evangelho e da centralidade do amor. Ele enfatiza que “a letra mata, mas o compromisso com o Amor salva e promove vida”, e conclui: “Pecado é não amar.

É certo que a Bíblia não é um livro de ódio, que não autoriza nenhum tipo de violência e que revela o amor de Deus “que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Igualmente, o cristianismo verdadeiro não é uma religião de intolerância e ódio, mas defensora das liberdades, incluindo a liberdade de expressão e liberdade religiosa. Os cristãos não são contra os homossexuais, contra seguidores de outras religiões e nem segregadores, entretanto, a liberdade que defendem para os demais, defendem também para si. Assim, se alguém tem o direito de seguir princípios religiosos destoantes do cristianismo, conservar práticas e valores segundo sua consciência, também os cristãos têm direito de preservarem seus valores, viverem e expressarem sua fé sem medo ou constrangimentos. Se, por exemplo, alguém crê que comer carne é pecado, os cristãos têm o direito de pensar o contrário e agir conforme sua consciência e firmados na Palavra Sagrada, sem, todavia, que sua liberdade signifique ódio ou incentivo à violência, uma vez que o Cristo nos ensina um modo mais excelente. Como cristãos, defendemos a liberdade de pensar e de se expressar como direito inalienável.

Em sua Declaração Doutrinária, os batistas da Convenção Batista Brasileira tratam assim sobre o tema “Liberdade Religiosa”:

Deus e somente Deus é o Senhor da consciência. A liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais do homem, inerente à sua natureza moral e espiritual. Por força dessa natureza, a liberdade religiosa não deve sofrer ingerência de qualquer poder humano. Cada pessoa tem o direito de cultuar a Deus, segundo os ditames de sua consciência, livre de coações de qualquer espécie. A igreja e o Estado devem estar separados por serem diferentes em sua natureza, objetivos e funções. É dever do Estado garantir o pleno gozo e exercício da liberdade religiosa, sem favorecimento a qualquer grupo ou credo. O Estado deve ser leigo e a Igreja livre. Reconhecendo que o governo do Estado é de ordenação divina para o bem-estar dos cidadãos e a ordem justa da sociedade, é dever dos crentes orar pelas autoridades, bem como respeitar e obedecer às leis e honrar os poderes constituídos, exceto naquilo que se oponha à vontade e à lei de Deus.1

O fato de os cristãos conservadores considerarem o aborto como prática pecaminosa não significa, de forma alguma, que estejam destilando ódio contra alguém, mas sim emitindo opinião com base em seu entendimento das Escrituras, o que lhes é garantido pela Constituição Federal, que considera “inviolável a liberdade de consciência e de crença.2 Da mesma maneira, quando o tema é Ideologia de Gênero, homossexualidade ou mesmo o ingresso de LGBTs nas igrejas, a posição tradicional cristã contrária a tais práticas não indica homofobia, ódio, nem incentivo à violência, mas posições e conceitos formados a partir da leitura da Palavra de Deus. Igualmente, quando tratando de outros temas afirmam que um ou outro ato ou comportamento é pecaminoso, isso não implica intolerância, discriminação ou preconceito, mas em opinião religiosa, respeitosa e embasada.

Por defenderem as liberdades e direitos, como já dito aqui, é que os cristãos não aceitam que qualquer código de valores, regras, dogmas, ideologias etc., que violem direitos e/ou liberdades, sejam impostos arbitrariamente como padrão a ser seguido. É por isso que não querem Ideologia de Gênero ensinada nas escolas, nem distribuição de “kits” ou materiais que promovam a homossexualidade no ambiente escolar. Até porque, se o comportamento homossexual é algo natural, como alguns defendem, ele não precisa, como a heterossexualidade, ser imposto e/ou incentivado. Estamos num país livre, onde cada qual pode viver e agir conforme sua consciência, sem, entretanto, ferir o direito alheio, impondo aos demais o que considera ser para si natural e bom. Laborar para que o comportamento de alguma minoria seja imposto como padrão comum e normativo para a sociedade é tolher direitos e cercear a liberdade de quem pensa e quer viver de outra maneira.

Os cristãos têm o direito de chamar de “pecado” qualquer prática que assim considerem, à luz de seu entendimento bíblico. Isso vale para o aborto, para o homossexualismo, bem como para qualquer outra prática, sem, no entanto, consistir sua opinião em preconceito, homofobia ou qualquer outro tipo de discriminação ou violência. Opinião não é coisa a ser criminalizada num país livre. Graças ao bom Deus, o Brasil é uma nação democrática, e temos nossas liberdades e direitos garantidos.

Quanto a afirmação de que “pecado é não amar”, é preciso, com lucidez, colocar a coisa como se deve. A frase, como estruturada, é reducionista e serve propositalmente para lançar uma cortina de fumaça a fim de encobrir a verdade, e isso é artimanha maligna para enredar pessoas e levá-las à perdição. Tal sutileza cumpre perfeitamente seu objetivo de criar uma atmosfera favorável para que pessoas justifiquem suas práticas e, mesmo assim, se considerem na comunhão com Deus. Se as palavras forem devidamente ordenadas, temos “não amar é pecado”, e nisso há sentido. Dizer que “pecado é não amar” é o mesmo que afirmar que o único pecado é não amar, enquanto dizer que “não amar é pecado” não nega a existência de outras práticas condenadas nas Escrituras. A ideia de pecado deve ser concebida na inteireza e abrangência do ensino bíblico, sem reducionismo ou relativismo, para que ninguém fique desavisado sobre a severidade do juízo divino sobre os pecadores não arrependidos. Qualquer outro discurso consistirá em palavras vãs, cujo propósito já sabemos (Efésios 5:6).

Tenha em mente que as afirmações cristãs feitas com base bíblica, quando da abordagem de temas tão polêmicos e relevantes, não devem ser consideradas preconceituosas, odiosas, homofóbicas ou incentivadoras de qualquer violência, e sim como declarações de verdade, desnudas, graves, porém cheias de amor verdadeiro, como o amor de um pai que avisa seu filho com gravidade sobre algum perigo a ser evitado. Tais declarações são de cunho religioso e não intencionam desencadear guerra contra pessoas ou classes, uma vez que os cristãos sabem que não têm “que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Efésios 6:12).

Jesus sempre marcou posição firme sobre o pecado e a necessidade de arrependimento. Certa vez, ele disse: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados.” (João 8:24). Seu discurso jamais anulou seu amor, tanto que morreu pelos pecadores, bem como seu amor nunca cooperou para atenuar suas falas severas e cheias de Verdade (João 6:60,66). À mulher adúltera amou e perdoou, porém a advertiu dizendo “vai-te e não peques mais”, mostrando-lhe o caminho do arrependimento como condição para uma nova vida (João 8:11). A mesma Bíblia que diz que “Deus é amor” (1 João 4:8) é a mesma que diz que “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hebreus 10:31), e que o Poderoso “tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo” por meio do Cristo ressurreto (Atos 17:31). Falar de amor e ocultar o juízo divino é desonestidade. Dizer que Jesus preferiu não julgar ou condenar, pois estava mais interessado em amar e acolher é politicamente correto, mas faz parte de um discurso mentiroso e diabólico.

Afirmar que textos bíblicos que tratam sobre pecados, se levados em conta pelo leitor, poderão “promover e justificar atrocidades”, é desqualificar a Palavra de Deus, atribuir-lhe ódio e violência, e esvaziá-la da Verdade. O evangelho, quando reduzido à mensagem moderna de amor, deixa de ser “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16), e torna-se uma doutrina do diabo para arrebanhar almas incautas. Este falso amor que exclui a realidade do juízo é porta larga que conduz à perdição e, portanto, deve ser evitada. Pense nisso!


Em 2018


1 Declaração Doutrinária da CBB, “XV- Liberdade Religiosa”: http://www.batistas.com/portal-antigo/index.php?option=com_content&view=article&id=15&Itemid=15&showall=1 (acessado em 21 de abril de 2018).

2 Constituição Federal, Art. 5º, inciso VI, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm (acessado em 24 de abril de 2018)